terça-feira, 8 de abril de 2014

sobre canecas de leite quente, aquela noite fria e saudades...


Trilha:


Naquela noite eu acreditei que tudo ia ficar bem.
Eu entrei na sua casa e tentei acalmar meu coração dizendo a ele que você ia voltar.
Eu fui dormir fazendo minhas orações pra que no dia seguinte você voltasse e tudo ficasse como sempre foi.
O vovô acordou com as minhas crises de tosse durante a madrugada, e me chamou pra tomar uma caneca de leite quente.
Minha alma estava agitada.
Me sentei naquele sofá da cozinha, usando um pijama qualquer, encarei meus pés, calçados num par de meias velhas e puxei minhas pernas pra cima do sofá, e então me senti com 7 anos de idade novamente.
Meu coração se aquietou e se sentiu aquecido como há muito não sentia. Observei o vovô se movendo devagar e meio sonolento pela cozinha preparando meu leite.
Meus olhos se encheram de lágrimas e meu coração se apertou, pensando agora acho que alguma coisa queria me avisar que você não voltaria...
Naquele momento experimentei várias sensações ao mesmo tempo. Nostalgia da minha infância, saudades de ter você, desespero e súplica pra que você ficasse bem e felicidade de poder estar ali com o vovô experimentando aquele momento de ternura e cuidado.
Sentada no sofá aquela noite, vendo o vovô fazer meu leite, fui transportada para imagens das minhas lembranças, que começaram a passar ali mesmo como se fosse diante dos meus olhos. Cenas de uma eu-menina acordando mais cedo que a mamãe, deitada na cama com os ouvidos atentos para ouvir seus passos e seu assovio que era tão comum de ser ouvido assim que a senhora acordava, por que ai eu me sentia autorizada a levantar.
Me vejo saindo sonolenta do quarto e te dando bom dia. Me vejo sentando ao meu lado no mesmo sofá, da mesma forma que estou naquela noite, e aguardando a senhora preparar meu leite.
Uma lágrima cai e um vento frio que entra da janela semi aberta da cozinha me traz de volta ao presente.
Engulo o choro e pego a caneca que o vovô me trouxe. Ele me faz companhia até eu terminar de beber o leite. Dou um abraço e um beijo desejando bons sonhos a ele.
Naquela noite dormi chorando e abraçando seu casaco. 

Você faz falta.

"Talvez um dia eu volte a caçar vagalumes..." (T.S. Spivet - Uma viagem extraordinária)


Post dedicado a Vovó Cida (in memorian)






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