Sabe mãe, esse último ano longe de você me fez entender algumas coisas que eu como criança nunca entenderia, se não fosse a vida acontecer e nos afastar da maneira que nos afastou.
Quando eu era pequena, nunca entendi porque em algumas semanas você ficava mal humorada ou desanimada, ficava um pouco confusa quando eu acordava mais cedo e você me chamava pra deitar com você e dormir um pouco mais, e você decretava que aquele seria um dia preguiçoso, decidia que íamos assistir um filme e comer qualquer coisa fácil de se cozinhar no almoço. Pra mim era uns dias legais que eu passava com você, mas agora eu fui entender que você tava triste e precisava da minha companhia pra te distrair um pouco da sua tristeza. Eu entendo sua tristeza agora. Eu entendo que era saudade da sua casa. Eu entendo que você se sentia sozinha longe da nossa família, mesmo quando tinha eu e meu pai de companhia.
Eu também não entendia porque quando voltávamos da casa da vó Cida você passava o dia seguinte inteiro deitada, e a semana seguinte desanimada e um pouco mal humorada. Semana passada pra mim foi horrível também. Agora eu entendo o terror que é voltar de uma casa que te traz segurança, e que você é cuidada e amada, para a realidade da vida adulta de ter que cuidar da sua própria casa e de você mesma. E devia ser ainda pior pra você que tinha que além de cuidar de si, ter forças pra cuidar da pessoinha que escreve esse texto aqui. Eu não sei se conseguiria (já é difícil demais lidar comigo sozinha).
Eu entendo o que é sentir falta de uma comida, de um cheiro, de um colo de um abraço.
É difícil ter que ver uma criança como a nossa menininha crescer através de fotos, vídeos e áudios.
Eu ainda não me acostumei a ficar doente sem você, sempre que começa as crises de tosse de madrugada, eu fico esperando inconscientemente que você entre no meu quarto com um xarope nas mãos, uma pomada pra passar no meu peito, e um beijo de boa noite, mas nada acontece, só escuto o silêncio do lado de fora, e ai eu sei que seguida dessa crise de tosse, vem a crise de choro.
É difícil em alguns dias sair do trabalho tão cansada e desejar apenas poder chegar em casa e te encontrar com o café recém coado me esperando pra gente tomar uma boa xícara de leite e jogar conversa fora enquanto você prepara a janta.
Sinto falta até das nossas brigas. Aquelas nossas brigas de quando você me proibia de sair pra algum lugar e eu ficava de bico no quarto achando que meu mundo ia acabar.
Ahhh a adolescência, hoje eu juro que faria de tudo pra voltar no tempo e te agradecer por ter me feito ficar em casa, faria de tudo pra ter aproveitado e te puxado pro sofá pra assistir qualquer filme que você quisesse assistir.
Ah mãe, mas a gente só aprende com a dor mesmo.
Eu sei que cada viagem pra sua casa vai ser uma memória boa e nova daqui pra frente, sei que cada encontro na rodoviária vai ser uma amostra do que é o Paraíso, e sei que cada despedida vai parecer o inferno no meu coração.
Mas eu sei que cada dia que passa eu vou continuar te amando mais e mais, vou continuar procurando maneiras de consolar meu coração saudoso, meu eu-criança que tanto chora todos os dias querendo colo e uma xícara de leite quente.
Sei que a gente sempre vai ser assim, desajeitada com toda essa distância, mas sei que nossos corações vão estar pra sempre ligados um ao outro.
Eu sei que toda noite posso olhar pro céu e ter a certeza que você também tá olhando pro mesmo céu que eu, e isso me traz conforto, em saber que não estamos tão longe assim.
Continuamos ligadas pelo mesmo coração e pelo mesmo céu.
"Por quanto tempo eu vou te amar?
Por tanto tempo quanto as estrelas estejam acima de você
E por muito mais tempo, se eu puder..."
<3
<3
Maravilhoso, princesa Bee.
ResponderExcluirJá vivi isso e sei o quanto dói... Mas pensa que você sempre terá o colo dela e sempre terá um lugar seguro para desabafar.
Estou aqui pra qualquer coisa.
Beijo e "be strong".